SUS_TO, mais do que sempre

on quinta-feira, 11 de março de 2010

Hoje, acordei 5 horas da manhã, motivo: minha mulher tinha uma cirurgia marcada, havia mais de uma semana.

Chegamos no hospital antes da seis, já estava lotado, como sempre. As balconistas da recepção, mal -educadas e grossas como sempre, nos atenderam daquele jeito de sempre. Ficamos na fila esperando um leito, porque todos estavam ocupados, sem previsão de disponibilidade, como sempre.

Ficamos em pé um bom tempo, como o tempo de sempre, pois havia nos bancos pessoas dormindo, mulheres grávidas gemendo de dor, outras pessoas passando outros tipos de mal, além do próprio mal do hospital, de sempre e sempre.

O tempo passava e uma só história se repetia, mulheres chegavam com suas enormes barrigas e voltavam com o mesmo peso, só a dor era maior que elas. Não havia leito, fazer o quê? É sempre assim.

Já era uma multidão de quase indigentes, uns gemiam, outros preferiam esquecer o mundo real e tirar uma soneca que os libertasse, pelos menos momentaneamente, daquele sufrágio.

Um banheiro para sei lá quantos, se demorasse, arriscava fazer ali mesmo. Uma senhora, em um canto, contava e rolava as bolinhas do terço na mão. Não sei para quê, nem para quem rogava, mas a razão só podia ser aquele purgatório no qual sua alma fora jogada para expiar.

Um pai chegou carregando o filho, um menino pálido e magro, não fossem os olhos que me fitavam, pensaria que estivesse morto. Ficou ali horas, jogado em uma banco que alguém cedera por piedade, e seu pai chorou o choro de todos nós e sofreu o nosso sofrimento, essa é a comunhão dos miseráveis que o Estado, há muito, abandonou.

A mulher continuava suas incessantes Ave-Marias, mas preferi Kant e sua metafísica: eu era no tempo e no espaço exatamente aquilo que eu pensava que era.

Vencidos pelo cansaço, três e trinta da tarde, deixamos o hospital sem ser atendidos, mas não sem antes sermos humilhados por uma mulher que tinha no peito, arrogantemente, letras amarelas que juntas diziam: SERVIÇO SOCIAL.

Me sinto um lixo que sabe ler e escrever. Dizem que sou um cidadão, tenho direito à vida, à liberdade, à educação, entre outras coisas. Entretanto, primeiro tenho que pagar meus impostos. Mas quando procuro atendimento médico, eis o que me ocorre. Aliás, como sempre, não é mesmo?

Pensei tudo isso enquanto declarava meu imposto de renda, do qual cerca de 12% deve, obrigatoriamente, ser destinado à saúde pública. O Brasil arrecadou em 2009 mais de um trilhão em impostos. O Governo do Estado diz que investe 23% na saúde, com uma arrecadação de mais de R$ 20 bilhões só do Pólo Industrial de Manaus.

Enquanto isso, vou continuar pagando a UNIMED para, até quando?, permanecer sendo tratado, como hoje, feito um bicho.
É mole!?

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